Sing Me Out

Abril 9, 2008 at 6:43 pm (Poesia)

Rasga a pele de ti, liberta-te do teu corpo
Imóvel nas linhas de um sorriso sórdido,
O bater instável de um coração morto
Bebe do ópio, higrófilo, utópico.

Revê-te nos sonhos unilaterais:
Pseudo falsificações de uma crítica.
Elementos diferencialmente paradoxais
Explícita, empírica, elíptica.

Ostenta a razão consternada
De um sofrimento subjectivo.
A palavra supérflua cinzelada:
Fictício, lírico, um suplício.

Traços de grafite em sorrisos,
Ensinar-te-ei a não ser um enjoo
De semblantes frívolos concisos
Monocromático, no ápice: explode-o.

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The Heart

Abril 5, 2008 at 5:55 pm (Prosa)

A escadaria principal estava coberta de pó. As molduras gastas pelo tempo continham no seu interior rostos que se tinham modificado e tornado cadáveres decompostos. Os candeeiros à muito apagados eram enfeitados por teias de aranha esbranquiçadas, as tábuas de madeira que constituiam o chão oscilavam sob os passos que não existiam. Tapeçarias que no seu tempo seriam consideradas majestosas, serviam agora de alimento aos poucos seres vivos que ainda habitavam na casa abandonada. Vitrais que outrora seriam comparados a rubis, safiras e opalas resplandescentes ficavam agora semi congelados por causa do frio que se fazia sentir.
No primeiro andar os quartos estavam inundados de pó: os lençois que dantes eram brancos apresentavam-se agora cinzentos. As janelas abertas permitiam ao vento entrar ameaçando causar uma confusão tal que deixava tudo em silêncio, um silêncio hipotético e taciturno que se impregnava nos tecidos, nos colchões das camas, por entre as fendas de madeira do mobiliário cuidadosamente esculpido com curvas e contra-curvas que se desfaziam ao toque; assim como o medo de lá habitar. As paredes calvas erguiam-se imponentes e por momentos eram cuidadosamente cobertas por estantes repletas de livros de um outro tempo, de uma outra vida. Promessas de corpos que um dia se abraçaram sobre os lençois frios pairavam no ar, dificultanto a respiração e acelarando o coração de quem lá a entrar não se atrevia.
No corredor estava uma caixa de metal enferrujado que se encontrava trancada. Dela provinha um bater incessante e constante. A chave encontrava-se ao lado, imobilizada no chão. Com um cuidado trémulo a caixa foi aberta: lá dentro batia um coração.

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One Kiss And Goodbye

Março 27, 2008 at 8:41 pm (Prosa)

Estava sentado na areia que era levantada pelo vento. Ao longe as ondas rebentavam e a espuma branca salpicava o azul escuro. A lua, branca e leitosa, era reflectida no mar que brincava consigo mesmo no seu relevo mutável. Não havia mais ninguém.
Ele acendeu um cigarro e deixou o fumo fugir por entre a sua boca e dentes. Deitado, fechou os olhos e esquecia a paisagem; no entanto disfrutava do cheiro salgado e das algas; o barulho das ondas a embaterem umas contra as outras e contra a própria areia formavam uma um pano de tecido que caia sobre a praia e dava forma a tudo enquanto envolvia o mar, o chão, as estrelas…só pensava numa coisa. Quando se levantou, caminhou ate à areia molhada. Estava frio, mas não era desagradável: mantinha-o acordado e com a certeza que estava vivo, de que nada disto era um sonho: até que a viu. Quem mais poderia ser?
Estava demasiado habituado a não ver o sol. A não se dar sequer ao trabalho de olhar para cima; mas agora era diferente, enquanto o brilho da lua lhe dava a ela um brilho natural. A falta de palavras fê-lo caminhar. Fitou-a, apercebem-se ambos da presença um do outro e ele ganhou coragem para lhe tocar. As pontas dos dedos deslizaram suavemente pelas costas, enquanto ela se virava para ele. Evitavam os olhos um do outro mas estes cruzaram-se. Sorriram ambos, um sorriso timído que se desvanecia à medida que os dedos dele brincavam suavemente sobre a sua face. Ninguém dizia nada. Nem uma palavra pairava no ar, nenhuma palavra que a linguagem corporal dos dois não transmitisse. Ela não se movia, e ele deixava o seu polgar passar pelos lábios vermelhos enquanto o outro braço deslizava para a cintura, cingindo-a cada vez mais contra ele. A respiração dos dois tornava-se irregular por causa da proximidade. Sentiam o hálito quente sob as narinas atentas e aproximavam-se, cada vez mais mais perto da boca um do outro.

“Acorda”, disseram-me.

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